Me Dá Saudade

(Ou Descrição de sonho #3.)

Era uma banda hipster tipo The Pains of Being Pure at Heart e tinha uma ideias tipo Flaming Lips. Prometiam que as quatro músicas disponibilizadas em seu site reproduziriam uma quinta música completamente diferente se fossem tocadas ao mesmo tempo. A primeira era um cover indie de Wando e as outras não passavam de barulhos aleatórios. Mesmo não acreditando muito, dei o play no Wando e comecei a bater o pé para marcar o andamento e tocar as próximas no tempo certo.

Para minha completa surpresa, a quinta música era uma versão de estúdio de Me Dá Saudade, de Pepe Fontanari. Tinha ganhado arranjos novos e pensei ser justo que finalmente um músico cachoeirense rompesse as fronteiras da Capital do Arroz.

Quando eu ando pela Sete
E o sol começa a esquentar
E o riso ciranda o rosto
Quando eu começo a me lembrar

Me dá saudade
Do cheiro de guardado
Nas capas de vinil
Que se compra em brechó

Revirando algumas fotos
E lembrando de algum tempo que passou
Me peguei rindo sozinho
Da minha própria solidão

Me deu saudade
Saudade de ser cabeludo
E do casaco de veludo
Que eu ganhei da minha vó

Me deu saudade
Saudade de ser cabeludo
E do casaco anos 70
Que eu ganhei da minha vó

Eu e o diabo

(Ou Descrição de sonho #2.)

Era noite e havia um grupo de pessoas que me conheciam sem que eu as conhecesse. Enforcaram um cachorro preto e começaram a evocar o diabo, que incorporou no bicho e disse que um de nós não acreditava no demônio. Deitei a cabeça nos braços, encagaçado: não acredito em deus, muito menos nele.

Alguém me chamou duas vezes pelo segundo nome e quando levantei a cabeça era o próprio demônio que me encarava à ponta da mesa.

— É verdade que tu não acredita em mim?

Disse que não conseguia explicar nada daquilo e ele sorriu. Tinha o rosto do Robert Downey Jr.

Meu recém-falecido ex-colega

(Ou Descrição de sonho #1.)

Eu estava caminhando por uma rua próxima a minha antiga casa quando um avião cruzou o céu em direção ao solo. O som da explosão chegou a mim no mesmo instante em que vi um paraquedista se aproximando a uma velocidade que, certamente, não permitiria uma aterrissagem segura. O paraquedista se estatelou em um terreno baldio ao lado da casa de um ex-colega meu e, como em qualquer outro acidente, sua primeira reação foi tentar levantar-se e provar (sobretudo a si mesmo) que tudo estava bem. Como bom estudante de manuais de primeiros socorros, pedi para que não se movesse e fui à casa de meu ex-colega pedir ajuda. Seu pai estava ao telefone e, ao desligar, veio finalmente abrir a porta. Com os olhos vermelhos, disse que meu ex-colega acabara de morrer. De gripe.

Apesar da notícia triste que acabara de receber, o pai de meu recém-falecido ex-colega concordou em ajudar o paraquedista - que era, como você já deve ter imaginado, piloto do avião. Graças a esse gesto estóico de solidariedade, pude correr à rodoviária para comprar uma passagem. No caminho, encontrei um ex-professor da faculdade que, descobri, era tio de meu recém-falecido ex-colega. Revoltou-se quando lhe contei que o pai de meu recém-falecido ex-colega estava com os olhos vermelhos, pois, segundo ele, o velho não perdia nenhuma oportunidade de chamá-lo de indie. Perguntei se a rodoviária possuía caixa eletrônico do banco do estado, pois eu não tinha dinheiro. O professor não sabia, mas uma propaganda do banco na próxima curva tirou minha dúvida. Chegamos à rodoviária às 17h, mas o ônibus só sairia às 18h18*.

* Coincidentemente, na vida real, esse é meu horário de saída do trabalho.