O Efeito Borboleta (parte II)

Almada & Oliveira

O futuro soldado Sd. Almada ainda era um adolescente magro conhecido como Kiki quando emergiu e gritou pelos bombeiros. Um deles mergulhou e retirou pelo braço alguém ainda mais magro, de uns 15 anos, respirando com dificuldade. Os dois jovens foram levados até onde a correnteza era mais fraca e o afogado mentiu que tinha ido sozinho ao balneário. Na verdade, se afogou porque o dia estava quente, aceitou o convite de um padrinho, arriscou-se em águas mais profundas e a correnteza estava forte. Não morreu porque pediu ajuda e o amigo lhe salvou como pôde.

Aos 17, um colega chamado Adão Maurício gravou-lhe um CD com programas de computador, jogos e videoclipes. Em casa, descobrindo sozinho e desconectado como funcionava um editor HTML, travou seu primeiro contato com códigos-fonte e lógica de programação. Aos 19, tinha certeza absoluta do que queria cursar: Ciência da Computação. E aos 24, foi ao amigo que dedicou seu trabalho de conclusão de curso. Afinal, aquele simples compartilhamento de arquivos, sete anos antes, havia determinado seu meio de vida.

Por causa de vergonhas adolescentes sem sentido, talvez nunca tenha agradecido aos dois. Demorou para entender que só estava vivo e fazendo o que fazia por causa dessas duas pessoas e de uma combinação única de fatores. Quando o fez, era tarde. Por combinações menos felizes, Adão Maurício Moreira de Oliveira faleceu no Natal de 2007, aos 27 anos. Maicon Vicente Nunes Almada morreu dois meses e meio depois, aos 22.

Pérolas aos porcos

Se você tuitar a quintessência do universo e não houver reação nenhuma de seus seguidores, não se desespere: não é à toa. O Twitter possui mais de 100 milhões de usuários ativos e uma média de 200 milhões de tweets por dia, o equivalente a 8.163 cópias de Guerra e Paz. Verborragicamente falando, é claro.

Como não há nenhum algoritmo de ranking que privilegie conteúdo relevante, tanto quem produz quanto quem consome informações no Twitter fica à mercê da linha do tempo. Na prática, isso deixa claro qual é a característica mais notória dessa rede social: você fala sozinho.

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Essa avalanche de informações não é novidade. O Facebook, por exemplo, contorna esse mesmo problema com muita elegância, mesmo que seu usuário médio tenha quase cinco vezes mais amigos do que a média de seguidores do Twitter. Por lá, toda vez que você posta algo sua pequena pérola de sabedoria tem no mínimo duas chances de permanecer nas top stories: randomicamente, quando ainda é conteúdo recente, ou recebendo likes, comentários e shares. Postado no Twitter, a mesma informação é rapidamente soterrada por uma torrente de sapiência.

Sim, você pode argumentar que as duas redes não têm a mesma finalidade e sim, você está certo. Mesmo assim, na minha humilde opinião, o Twitter precisa rever a disposição dos tweets, sob o risco de tornar-se inutilizável com aquela timeline burra. Até lá, caros amigos, continuaremos atirando pérolas aos porcos.

Porcos cegos.

Aprecie com moderação

Enquanto a maior parte dos meus colegas de profissão cresceu com um 386 a tiracolo, só comprei meu primeiro computador aos 16 anos. Ao invés de programar em Haskell e Visual Basic, ocupava minhas tardes correndo pela rua, jogando futebol, perdendo unhas e escalavrando os joelhos. Hoje, pesando os benefícios e malefícios que essa iniciação tecnológica tardia me trouxe, acredito que eu tenha feito as escolhas certas, mesmo involuntariamente.

Meu afilhado tem 11 anos e também joga futebol. No videogame. Aprendeu por osmose a navegar na Internet e sabe instalar qualquer programa no computador, mas nunca andou de carrinho de lomba. Sua bicicleta está abandonada em algum canto da garagem, enquanto ele explora o celular novo ou qualquer outra traquitana tecnológica. É um ótimo exemplo do quanto a infância (e por que não nossos hábitos como um todo) mudou em pouco mais uma década.

Ao contrário do que pode parecer, esse abismo não causa só nostalgia: preocupa. Horas e horas sentado em frente ao computador podem deixar qualquer criança com um lindo formato de ponto de interrogação. Um ponto de interrogação gordo, míope e potencialmente viciado, diga-se de passagem.

Não bastasse isso, a tecnologia inventa necessidades e acentua nossa preguiça. Em julho, por exemplo, uma pesquisa comprovou que o uso da tecnologia afeta a memória, isto é, não nos preocupamos em memorizar informações que estão salvas em outros meios. Quer um exemplo claro disso? Duvido que você saiba de cor mais do que 5 números de telefone. Afinal, estão todos na agenda de contatos, não é mesmo?

E assim, pouco a pouco, você deixa de começar as frases com letra maiúscula, pois o Word muda a caixa automaticamente para você; não se preocupa em escrever corretamente, porque qualquer editor de texto tem AutoCorrect; desiste de aprender como se grafa algorithm e Nietzsche, já que o Google sabe o que você quer dizer. Isso tudo sem contar sua caligrafia, pior do que a de um médico octogenário com mal de Parkinson.

Enfim, falar de tudo que conquistamos graças à tecnologia é como chover no molhado. Todo mundo sabe. Vivemos na era da informação e isso não vai mudar. Só não esqueça disto: há vida offline. O mundo não é feito de silício.

 

A pior profissão do mundo

A pior profissão do mundo não é manipulador de boca de forno, pesquisador de fezes de baleia, removedor de cadáveres na estrada, entomologista forense, controlador de qualidade de comida de gato, inspetor de alta-tensão, limpador de banheiro químico, analista de suporte da Microsoft, piloto de avião agrícola, masturbador de cavalos, esterilizador de elefantes, guarda no Palácio de Buckingham, mergulhador de risco ou zelador de cinema pornô. Guarde sua coleção de Superinteressante, pequeno gafanhoto. A vida real não passa no Discovery Channel.

A pior profissão do mundo, caro amigo, é a de atendente do Cinesystem na quinta-feira do beijo.

Ponha-se no lugar da Adelaide, vendendo ingressos para a última sessão de P.S. Eu Te Amo dois dias depois de ter sido trocada pela garçonete do Habibs. É quinta-feira, maldito dia da semana em que “o casal que trocar um beijão diante da bilheteria pagará apenas R$ 13 por dois ingressos para sessões 2D e R$ 19 para sessões 3D”.

Pescou a mensagem subliminar? Não basta um beijo simbólico, trocado discretamente para se credenciar ao desconto. É preciso engolir o(a) companheiro(a) no mais tórrido e úmido beijo de língua, daqueles que duram no mínimo 10 minutos e têm intensidade suficiente para desentupir um ralo de pia do McDonald’s.

E a Adelaide ali, batendo desesperadamente no vidro para que o quinquagésimo casal da noite se desgrude e alguém digite a senha do cartão de crédito. Antes de pegar os ingressos, o mancebo apaixonado ainda tem tempo de olhar no fundo dos olhos da namorada e repetir, com um sorriso abobalhado, o quanto a ama.

No fim da noite, Adelaide fará com que o Cinesystem perca somente para Lituânia e Coreia do Sul em número de suicídios.

O Efeito Borboleta (parte I)

Ganthaler, Lorenz & Sartre

Na noite do dia 31 de maio de 2009, a pensionista italiana Johanna Ganthaler e seu marido chegaram atrasados ao setor de embarque do Aeroporto Tom Jobim e acabaram perdendo o voo 447 da Air France, que caiu no Oceano Atlântico matando 228 pessoas. Alguns dias depois, havia um caminhão na estrada austríaca em que os dois viajavam de carro. Não foi possível evitar o impacto e Johanna morreu na hora.

Causa mortis: o efeito borboleta.

Em 1961, o meteorologista Edward Lorenz tentava prever condições climáticas por meio de um sistema computadorizado que exibia graficamente a variação de um dado (temperatura, por exemplo) por um longo período de tempo. Um dia, buscando mais detalhes sobre um período específico, Lorenz decidiu poupar trabalho e utilizou os resultados impressos em uma execução anterior para continuar a análise a partir do ponto que lhe interessava. Para sua surpresa, o computador produziu um resultado completamente diferente do esperado.

Ao descobrir que o erro havia sido causado pela supressão de 0.000127 em casas decimais na impressão do resultado anterior, Lorenz concluiu que uma pequena diferença pode, durante um longo período de tempo, produzir um grande efeito. Apesar de sua utilização sensacionalista como Teoria do Caos, o efeito borboleta é antes de tudo uma constatação matemático-meteorológica: uma borboleta batendo suas asas na China pode, de fato, "causar" um furacão em Nova Iorque  semanas depois.

Se você assistiu ao filme com Ashton Kutcher, deve lembrar que toda decisão tomada por Evan o levava a um curso completamente diferente de vida. Na prática, é o que acontece todos os dias. Você pode derramar café na camisa, se atrasar trocando de roupa, perder o ônibus e, enquanto espera o próximo, encontrar sua futura esposa; pode errar o caminho e ser assaltado; pode participar de uma promoção por insistência de um amigo, ganhar uma viagem à Índia e virar budista.

Da mesma forma, a vida de Johanna Ganthaler teria sido drasticamente diferente se ela tivesse chegado alguns minutos antes ao aeroporto. Se, por algum motivo bobo, ela e o marido tivessem antecipado ou adiado a viagem de carro ou se o caminhoneiro tivesse faltado ao serviço, não teria havido acidente e Johanna estaria viva para presenciar o resgate dos corpos do voo 447, quase dois anos depois da queda. Reparou? Se, se, se.

As possibilidades são infinitas, mas o caminho deve ser único. Se você já ouviu que a vida é um livro que escrevemos dia após dia, esqueça: o livro está pronto e viver é rasgar quase todas as suas páginas. Ao tomar qualquer decisão, por menor que seja, você está abrindo mão de todas as outras possibilidades.

Esse é, aliás, um dos pilares do existencialismo, sintetizado em uma das frases mais conhecidas do filósofo Jean-Paul Sartre: Eu estou condenado a ser livre. Enquanto o senso comum nos leva a crer que o homem só é livre quando pode decidir, o exercício dessa liberdade é, em si, uma prisão. Citando Paulo Ghiraldelli Jr, "você pode tomar uma decisão que é ruim ou boa para você, mas o que você não consegue fazer é não decidir (não decidir é, afinal, decidir não decidir – lembre-se)".