Três músicas... proparoxitonais

Se você não tem mais nada a fazer na vida, mas nada mesmo, reserve uma fatia do seu ócio para ler o trabalho É o Amor - Lugares-Comuns da Música Popular Brasileira por Suas Rimas, escrito pelo guitarrista e vocalista da banda Ecos Falsos, Gustavo Martins. Uma das conclusões do amigo, por exemplo, é a de que "as proparoxítonas, como era de se esperar, constituem raras exceções". Dando sequência a quase famosa série de trincas musicais, publico hoje três dessas raridades.

Chico Buarque – Construção

Clássico. Presença obrigatória em apostilas de cursinho e livros de Língua Portuguesa.

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Alvarenga e Ranchinho - Drama de Angélica

Não se prenda à primeira impressão, pois Alvarenga e Ranchinho formaram uma dupla sertaneja com quase meio século de carreira. Composta por Alvarenga e M. G. Barreto, essa música é tocada até hoje no espetáculo Tangos e Tragédias.

Ouve meu cântico
Quase sem ritmo
Que a voz de um tísico
Magro esquelético

Poesia épica,
Em forma esdrúxula
Feita sem métrica,
Com rima rápida

Amei Angélica,
Mulher anêmica
De cores pálidas
E gestos tímidos

Era maligna
E tinha ímpetos
De fazer cócegas
No meu esôfago

Em noite frígida,
Fomos ao Lírico
Ouvir o músico
Pianista célebre

Soprava o zéfiro,
Ventinho úmido
Então Angélica
Ficou asmática

Fomos ao médico
De muita clínica
Com muita prática
E preço módico

Depois do inquérito,
Descobre o clínico
O mal atávico,
Mal sifilítico

Mandou-me o célere,
Comprar noz vômica
E ácido cítrico
Para o seu fígado

O farmacêutico,
Mocinho estúpido,
Errou na fórmula,
Fez despropósito

Não tendo escrúpulo,
Deu-me sem rótulo
Ácido fênico
E ácido prússico

Corri mui lépido,
Mais de um quilômetro
Num bonde elétrico
De força múltipla

O dia cálido
Deixou-me tépido
Achei Angélica
Já toda trêmula

A terapêutica
Dose alopática,
Lhe dei uma xícara
De ferro ágate

Tomou no fôlego,
Triste e bucólica,
Esta estrambólica
Droga fatídica

Caiu no esôfago
Deixou-a lívida,
Dando-lhe cólica
E morte trágica

O pai de Angélica
Chefe do tráfego,
Homem carnívoro,
Ficou perplexo

Por ser estrábico
Usava óculos:
Um vidro côncavo,
Outro convexo

Morreu Angélica
De um modo lúgubre
Moléstia crônica
Levou-a ao túmulo

Foi feita a autópsia
Todos os médicos
Foram unânimes
No diagnóstico

Fiz-lhe um sarcófago,
Assaz artístico
Todo de mármore,
Da cor do ébano

E sobre o túmulo
Uma estatística,
Coisa metódica
Como Os Lusíadas

E numa lápide,
Paralelepípedo,
Pus esse dístico
Terno e simbólico:

"Cá jaz Angélica,
moça hiperbólica
beleza helênica,
morreu de cólica!"

Skank - Formato Mínimo

Por último - e sim, menos importante - uma menção honrosa. Menção honrosa porque Samuel Rosa e Rodrigo F. Leão forjam uma proparoxítona em rubrica e, coincidência ou não, repetem rimas de Construção e palavras de - surpresa! - Drama de Angélica.

Começou de súbito
A festa estava mesmo ótima
Ela procurava um príncipe
Ele procurava a próxima

Ele reparou nos óculos
Ela reparou nas vírgulas
Ele ofereceu-lhe um ácido
E ela achou aquilo o máximo

Os lábios se tocaram ásperos
Em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos
E ávidos, gozaram rápido

Ele procurava álibis
Ela flutuava lépida
Ele sucumbia ao pânico
E ela descansava lívida

O medo redigiu-se ínfimo
E ele percebeu a dádiva
Declarou-se dela, o súdito
Desenhou-se a história trágica

Ele, enfim, dormiu apático
Na noite segredosa e cálida
Ela despertou-se tímida
Feita do desejo, a vítima

Fugiu dali tão rápido
Caminhando passos tétricos
Amor em sua mente épico
Transformado em jogo cínico

Para ele, uma transa típica
O amor em seu formato mínimo
O corpo se expressando clínico
Da triste solidão, a rúbrica

Eu avisei: não se prenda à primeira impressão. Hasta!

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Três músicas... de chorões

Eu iria fazer um parágrafo todo para dizer que três é o número de mosqueteiros, de poderes, da santíssima trindade, do ménage à trois e do lítio, mas não vou. O fato é que, a partir de hoje, vou postar de tempos em tempos três músicas com algum ponto em comum, de preferência algo inusitado. É inspirado no Trilha para e não deixa de ser uma forma de tirar a poeira do blog sempre que possível.

Para começar, três músicas que fizeram marmanjos chorarem. Antes de serem gravadas.

Kleiton & Kledir - Corpo e Alma

Reza a lenda que Kleiton Ramil ficou tão emocionado com a versão de seu irmão Kledir para Bridge Over Trouble Water (Paul Simon) que não conseguiu parar de chorar. Resultado: os vocais dessa música só foram gravados dias depois, quando a dupla viajou para os Estados Unidos para finalizar o disco (ê criatividade!) Kleiton & Kledir, de 1983.

Fonte: http://faclubecorpoealma.blogspot.com/2007/05/corpo-e-alma.html

Oasis - Champagne Supernova

Dessa vez, quem não resistiu foi o guitarrista Paul "Bonehead" Arthurs. E o pior: duas vezes! Segundo Ian Robertson, no livro Oasis: What's The Story?, Bonehead chorou pela primeira vez quando Noel Gallagher apresentou a música ao resto da banda, no ônibus da turnê. Tempos depois, durante as gravações da música, nova sessão de lágrimas do nosso sensível Cabeça de Osso.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Champagne_Supernova

Os Paralamas do Sucesso - A Novidade

Gilberto Gil precisou de apenas três horas para escrever a letra de A Novidade, grande sucesso do disco Selvagem?, de 1984. Entre um show e outro em Florianópolis, Gil colocou a rodar a melodia cantarolada por Herbert Vianna e deu forma aos versos sobre sereias, poetas e pobres famintos. A choradeira? De Herbert, enquanto anotava a letra que o baiano lhe passava por telefone.

Fonte: http://www.sidneyrezende.com/noticia/78833+selvagem+o+risco+calculado...

Até a próxima!

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Melhorando a experiência do usuário ao ouvir música no computador I: organização de arquivos

Este é o primeiro de uma série de pequenos posts com dicas para melhorar a experiência do usuário ao ouvir música no computador. A ideia é instigar pequenos hábitos, começando pela organização de arquivos.

Se você acha que é bobagem organizar seus arquivos em pastas específicas, imagine chegar no supermercado com sua lista de compras e se deparar com todos os produtos esparramados pelo chão. Imaginou? Com suas músicas, é a mesma coisa. Encontrar aquela música do King Crimson cujo nome você nunca decorou entre suas 10.000 MP3s é tão difícil quanto encontrar um pacote de queijo ralado no Supermercado Caos.

Para evitar essa dor de cabeça, o mais comum é criar uma pasta para cada artista e, dentro dela, criar um diretório para cada álbum. Não há consenso sobre como nomear a pasta do álbum, mas os dois padrões mais comuns são Ano - Nome do Álbum (discos organizados cronologicamente) e Nome do Álbum (Ano) (discos organizados em ordem alfabética). Cabe a você decidir o nome de acordo com o que julga mais importante. Por motivos que vou explicar em outro post, não se preocupe com o nome dos arquivos de música. Não fará a menor diferença para os nossos propósitos.

Com a organização das músicas por pastas, fica fácil achar aquela música do King Crimson cujo nome você nunca decorou. Basta abrir \King Crimson\1981 - Discipline\03. King Crimson - Matte Kudasai.mp3 ou \King Crimson\Discipline (1981)\03. King Crimson - Matte Kudasai.mp3.

Para finalizar, algumas observações:

  1. Se já há uma pasta chamada Minhas músicasnão reinvente a roda: salve suas músicas lá. Isso facilitará bastante a utilização das bibliotecas de mídia, assunto de outro post da série;
  2. Se o álbum possui vários artistas, crie uma pasta chamada Vários Artistas;
  3. Se o álbum possui mais de um disco, crie um subdiretório para cada um dos discos;
  4. Se você não sabe o ano de lançamento ou até mesmo o nome do disco, não se reprima. Busque essas informações em sites como allmusic.commusicbrainz.org e wikipedia.org. Se não for suficiente, acione Deus;
  5. Evite duplicações como "The Who" e "Who, The" ou "Emerson, Lake & Palmer" e "Emerson, Lake and Palmer" (dica da Folha Online).

Para começarmos, era isso. Até o próximo post!

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