Pérolas aos porcos

Se você tuitar a quintessência do universo e não houver reação nenhuma de seus seguidores, não se desespere: não é à toa. O Twitter possui mais de 100 milhões de usuários ativos e uma média de 200 milhões de tweets por dia, o equivalente a 8.163 cópias de Guerra e Paz. Verborragicamente falando, é claro.

Como não há nenhum algoritmo de ranking que privilegie conteúdo relevante, tanto quem produz quanto quem consome informações no Twitter fica à mercê da linha do tempo. Na prática, isso deixa claro qual é a característica mais notória dessa rede social: você fala sozinho.

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Essa avalanche de informações não é novidade. O Facebook, por exemplo, contorna esse mesmo problema com muita elegância, mesmo que seu usuário médio tenha quase cinco vezes mais amigos do que a média de seguidores do Twitter. Por lá, toda vez que você posta algo sua pequena pérola de sabedoria tem no mínimo duas chances de permanecer nas top stories: randomicamente, quando ainda é conteúdo recente, ou recebendo likes, comentários e shares. Postado no Twitter, a mesma informação é rapidamente soterrada por uma torrente de sapiência.

Sim, você pode argumentar que as duas redes não têm a mesma finalidade e sim, você está certo. Mesmo assim, na minha humilde opinião, o Twitter precisa rever a disposição dos tweets, sob o risco de tornar-se inutilizável com aquela timeline burra. Até lá, caros amigos, continuaremos atirando pérolas aos porcos.

Porcos cegos.

Aprecie com moderação

Enquanto a maior parte dos meus colegas de profissão cresceu com um 386 a tiracolo, só comprei meu primeiro computador aos 16 anos. Ao invés de programar em Haskell e Visual Basic, ocupava minhas tardes correndo pela rua, jogando futebol, perdendo unhas e escalavrando os joelhos. Hoje, pesando os benefícios e malefícios que essa iniciação tecnológica tardia me trouxe, acredito que eu tenha feito as escolhas certas, mesmo involuntariamente.

Meu afilhado tem 11 anos e também joga futebol. No videogame. Aprendeu por osmose a navegar na Internet e sabe instalar qualquer programa no computador, mas nunca andou de carrinho de lomba. Sua bicicleta está abandonada em algum canto da garagem, enquanto ele explora o celular novo ou qualquer outra traquitana tecnológica. É um ótimo exemplo do quanto a infância (e por que não nossos hábitos como um todo) mudou em pouco mais uma década.

Ao contrário do que pode parecer, esse abismo não causa só nostalgia: preocupa. Horas e horas sentado em frente ao computador podem deixar qualquer criança com um lindo formato de ponto de interrogação. Um ponto de interrogação gordo, míope e potencialmente viciado, diga-se de passagem.

Não bastasse isso, a tecnologia inventa necessidades e acentua nossa preguiça. Em julho, por exemplo, uma pesquisa comprovou que o uso da tecnologia afeta a memória, isto é, não nos preocupamos em memorizar informações que estão salvas em outros meios. Quer um exemplo claro disso? Duvido que você saiba de cor mais do que 5 números de telefone. Afinal, estão todos na agenda de contatos, não é mesmo?

E assim, pouco a pouco, você deixa de começar as frases com letra maiúscula, pois o Word muda a caixa automaticamente para você; não se preocupa em escrever corretamente, porque qualquer editor de texto tem AutoCorrect; desiste de aprender como se grafa algorithm e Nietzsche, já que o Google sabe o que você quer dizer. Isso tudo sem contar sua caligrafia, pior do que a de um médico octogenário com mal de Parkinson.

Enfim, falar de tudo que conquistamos graças à tecnologia é como chover no molhado. Todo mundo sabe. Vivemos na era da informação e isso não vai mudar. Só não esqueça disto: há vida offline. O mundo não é feito de silício.

 

Acervos digitais de revistas brasileiras

Em junho passado, câmaras conjugadas com poderosos holofotes obtiveram slides ainda inéditos de Nessie, o monstro de Loch Ness. Suficientemente claras para que os cientistas identifiquem um plessiossauro, animal supostamente extinto há 70 milhões de anos.

Foi com essa chamada que a VEJA introduziu, em dezembro de 1975, uma das seis reportagens que dedicou ao monstro mitológico das Terras Altas da Escócia. Como a própria revista afirmou, em uma edição especial de 30 anos, "em cinco, citou evidências científicas de sua existência. Na última, em 1994, revelou que o monstro era uma fraude".

Em 1983, a revista foi além: tomou por verdade uma brincadeira de 1º de abril da revista New Scientist e anunciou em primeira mão a criação do boimate, híbrido de boi e ahn... um tomateiro. Não acredita? Acesse a própria matéria digitalizada e comprove.

Boimate

O Acervo Digital VEJA é talvez o arquivo mais completo de uma revista brasileira, disponibilizando mais de 40 anos de edições. Essa e outras iniciativas preservam uma enorme quantidade de informações e permitem que tenhamos acesso não só ao conteúdo, mas também a um panorama geral dos últimos 80 anos, no qual fica clara a evolução da linha editorial e até mesmo da propaganda.

O Cruzeiro

http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro/

Propaganda

O Cruzeiro foi a principal revista ilustrada brasileira do século XX, sendo editada de novembro de 1928 a julho de 1975. Em 2003, o site Memória Viva iniciou um trabalho de preservação histórica para transcrever "um acervo digitalizado de aproximadamente 100 edições, além de todos os exemplares dos três primeiros anos (1928 - 1930) e outras 70 revistas a partir de 1940". Além disso, mantém seções específicas de curiosidades, colunas, charges e propagandas, como a da imagem acima, publicada nos anos 1930.

Acervo Digital VEJA

http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx

A VEJA dispensa apresentações, sobretudo ruins. Seu acervo digital, no entanto, é imbatível: permite "folhear" todas as edições digitalizadas e inclui busca por conteúdo. Se você quiser saber tudo que ela publicou sobre Jean-Paul Sartre, por exemplo, basta digitar "Sartre" na caixa de busca e voilà. Muito mais prático do que aspirar o mofo de centenas de revistas, não?

Veja

A única desvantagem do acervo é a utilização de Flash, o que impede, por exemplo, a leitura via iPad.

Superarquivo

http://super.abril.com.br/superarquivo/

Superinteressante

Companheira inseparável de todo CDF, a Superinteressante disponibiliza gratuitamente todo o acervo de textos produzidos pela revista desde 1987 (mais de 300 edições e alguns números especiais). Há matérias duplicadas e até mesmo textos de teste que não foram apagados (culpa de um estagiário, naturalmente), nada que lhe impeça, no entanto, de descobrir por que os pigmeus são pigmeus e por que a bússola aponta para o Norte.

Outras publicações

Expectativa de vida de um tweet

De acordo com as últimas estatísticas publicadas pelo Twitter, seus 175 milhões de usuários registrados postam 95 milhões de tweets por dia (0,54 por usuário). Segundo o The Next Web82% desses usuários têm uma média de 346 seguidores e seguem 350 pessoas. Dessa forma, a timeline do usuário médio do Twitter é alimentada diariamente com 189 novos tweets, ou seja, um post a cada 7 minutos e 37 segundos.

Quer mais números? Vamos lá.

Desde o lançamento do #NewTwitter, a timeline exibe inicialmente 20 tweets, carregando novos posts a medida em que o usuário rola a barra de rolagem. Consequentemente, se seus seguidores são preguiçosos e preferem ler apenas o que está na área visível da página, cada tweet seu dura 2 horas e 32 minutos na timeline.

Se parece duradouro, lembre que todos esses cálculos não excluem usuários inativos. Na realidade, os 95 milhões de tweets são postados diariamente por um número bem menor de usuários: 70 milhões na melhor das hipóteses, de acordo com as pesquisas listadas nesta resposta do Quora. Para que se tenha uma ideia do impacto dessa variável, atualizemos os números:

  • 70 milhões de usuários ativos;
  • 95 milhões de tweets por dia;
  • 1,36 tweet diário por usuário;
  • 476 tweets diários na timeline do usuário médio;
  • Um post a cada 3 minutos.

Ou seja, cada tweet sobrevive, no máximo, uma hora na timeline. É o tempo que você tem para ser lido e, com sorte, angariar um retweet.

Se você não quer correr o risco de ter sua sabedoria relegada ao esquecimento, talvez o melhor seja compartilhá-la em um meio menos efêmero, como Facebook ou até mesmo um blog pessoal. Se essa é a menor de suas preocupações, pressione o botão "Tweet" e desfrute seus 60 minutos de fama.