Aprecie com moderação
Enquanto a maior parte dos meus colegas de profissão cresceu com um 386 a tiracolo, só comprei meu primeiro computador aos 16 anos. Ao invés de programar em Haskell e Visual Basic, ocupava minhas tardes correndo pela rua, jogando futebol, perdendo unhas e escalavrando os joelhos. Hoje, pesando os benefícios e malefícios que essa iniciação tecnológica tardia me trouxe, acredito que eu tenha feito as escolhas certas, mesmo involuntariamente.
Meu afilhado tem 11 anos e também joga futebol. No videogame. Aprendeu por osmose a navegar na Internet e sabe instalar qualquer programa no computador, mas nunca andou de carrinho de lomba. Sua bicicleta está abandonada em algum canto da garagem, enquanto ele explora o celular novo ou qualquer outra traquitana tecnológica. É um ótimo exemplo do quanto a infância (e por que não nossos hábitos como um todo) mudou em pouco mais uma década.
Ao contrário do que pode parecer, esse abismo não causa só nostalgia: preocupa. Horas e horas sentado em frente ao computador podem deixar qualquer criança com um lindo formato de ponto de interrogação. Um ponto de interrogação gordo, míope e potencialmente viciado, diga-se de passagem.
Não bastasse isso, a tecnologia inventa necessidades e acentua nossa preguiça. Em julho, por exemplo, uma pesquisa comprovou que o uso da tecnologia afeta a memória, isto é, não nos preocupamos em memorizar informações que estão salvas em outros meios. Quer um exemplo claro disso? Duvido que você saiba de cor mais do que 5 números de telefone. Afinal, estão todos na agenda de contatos, não é mesmo?
E assim, pouco a pouco, você deixa de começar as frases com letra maiúscula, pois o Word muda a caixa automaticamente para você; não se preocupa em escrever corretamente, porque qualquer editor de texto tem AutoCorrect; desiste de aprender como se grafa algorithm e Nietzsche, já que o Google sabe o que você quer dizer. Isso tudo sem contar sua caligrafia, pior do que a de um médico octogenário com mal de Parkinson.
Enfim, falar de tudo que conquistamos graças à tecnologia é como chover no molhado. Todo mundo sabe. Vivemos na era da informação e isso não vai mudar. Só não esqueça disto: há vida offline. O mundo não é feito de silício.