O Efeito Borboleta (parte II)

Almada & Oliveira

O futuro soldado Sd. Almada ainda era um adolescente magro conhecido como Kiki quando emergiu e gritou pelos bombeiros. Um deles mergulhou e retirou pelo braço alguém ainda mais magro, de uns 15 anos, respirando com dificuldade. Os dois jovens foram levados até onde a correnteza era mais fraca e o afogado mentiu que tinha ido sozinho ao balneário. Na verdade, se afogou porque o dia estava quente, aceitou o convite de um padrinho, arriscou-se em águas mais profundas e a correnteza estava forte. Não morreu porque pediu ajuda e o amigo lhe salvou como pôde.

Aos 17, um colega chamado Adão Maurício gravou-lhe um CD com programas de computador, jogos e videoclipes. Em casa, descobrindo sozinho e desconectado como funcionava um editor HTML, travou seu primeiro contato com códigos-fonte e lógica de programação. Aos 19, tinha certeza absoluta do que queria cursar: Ciência da Computação. E aos 24, foi ao amigo que dedicou seu trabalho de conclusão de curso. Afinal, aquele simples compartilhamento de arquivos, sete anos antes, havia determinado seu meio de vida.

Por causa de vergonhas adolescentes sem sentido, talvez nunca tenha agradecido aos dois. Demorou para entender que só estava vivo e fazendo o que fazia por causa dessas duas pessoas e de uma combinação única de fatores. Quando o fez, era tarde. Por combinações menos felizes, Adão Maurício Moreira de Oliveira faleceu no Natal de 2007, aos 27 anos. Maicon Vicente Nunes Almada morreu dois meses e meio depois, aos 22.

O Efeito Borboleta (parte I)

Ganthaler, Lorenz & Sartre

Na noite do dia 31 de maio de 2009, a pensionista italiana Johanna Ganthaler e seu marido chegaram atrasados ao setor de embarque do Aeroporto Tom Jobim e acabaram perdendo o voo 447 da Air France, que caiu no Oceano Atlântico matando 228 pessoas. Alguns dias depois, havia um caminhão na estrada austríaca em que os dois viajavam de carro. Não foi possível evitar o impacto e Johanna morreu na hora.

Causa mortis: o efeito borboleta.

Em 1961, o meteorologista Edward Lorenz tentava prever condições climáticas por meio de um sistema computadorizado que exibia graficamente a variação de um dado (temperatura, por exemplo) por um longo período de tempo. Um dia, buscando mais detalhes sobre um período específico, Lorenz decidiu poupar trabalho e utilizou os resultados impressos em uma execução anterior para continuar a análise a partir do ponto que lhe interessava. Para sua surpresa, o computador produziu um resultado completamente diferente do esperado.

Ao descobrir que o erro havia sido causado pela supressão de 0.000127 em casas decimais na impressão do resultado anterior, Lorenz concluiu que uma pequena diferença pode, durante um longo período de tempo, produzir um grande efeito. Apesar de sua utilização sensacionalista como Teoria do Caos, o efeito borboleta é antes de tudo uma constatação matemático-meteorológica: uma borboleta batendo suas asas na China pode, de fato, "causar" um furacão em Nova Iorque  semanas depois.

Se você assistiu ao filme com Ashton Kutcher, deve lembrar que toda decisão tomada por Evan o levava a um curso completamente diferente de vida. Na prática, é o que acontece todos os dias. Você pode derramar café na camisa, se atrasar trocando de roupa, perder o ônibus e, enquanto espera o próximo, encontrar sua futura esposa; pode errar o caminho e ser assaltado; pode participar de uma promoção por insistência de um amigo, ganhar uma viagem à Índia e virar budista.

Da mesma forma, a vida de Johanna Ganthaler teria sido drasticamente diferente se ela tivesse chegado alguns minutos antes ao aeroporto. Se, por algum motivo bobo, ela e o marido tivessem antecipado ou adiado a viagem de carro ou se o caminhoneiro tivesse faltado ao serviço, não teria havido acidente e Johanna estaria viva para presenciar o resgate dos corpos do voo 447, quase dois anos depois da queda. Reparou? Se, se, se.

As possibilidades são infinitas, mas o caminho deve ser único. Se você já ouviu que a vida é um livro que escrevemos dia após dia, esqueça: o livro está pronto e viver é rasgar quase todas as suas páginas. Ao tomar qualquer decisão, por menor que seja, você está abrindo mão de todas as outras possibilidades.

Esse é, aliás, um dos pilares do existencialismo, sintetizado em uma das frases mais conhecidas do filósofo Jean-Paul Sartre: Eu estou condenado a ser livre. Enquanto o senso comum nos leva a crer que o homem só é livre quando pode decidir, o exercício dessa liberdade é, em si, uma prisão. Citando Paulo Ghiraldelli Jr, "você pode tomar uma decisão que é ruim ou boa para você, mas o que você não consegue fazer é não decidir (não decidir é, afinal, decidir não decidir – lembre-se)".