Os duendes e a sociedade moderna
Nossa primeira reação a acontecimentos estranhos é ligá-los a Deus ou ao Diabo, dependendo da situação. A causa de boa parte dessas ocasiões, no entanto, é bem menos fantástica e incrivelmente óbvia: duendes.
Até a grande crise financeira, esses pequenos seres desprovidos de beleza viviam tranquilamente guardando potes de ouro no final do arco-íris. Um dia, porém, ficou ruim para todo mundo e, além do ouro, os duendes passaram a guardar também uma infinidade de pertences humanos. Afinal de contas, sobreviver é preciso.
O item preferido dos duendes é, sem sombra de dúvida, a palheta. Você chama os amigos do grupo de jovens para um churrasco fraternal, limpa a garganta e se prepara para puxar aquela música da Legião Urbana. Apalpa os bolsos da calça cargo e não encontra nem sinal do maldito pedaço de plástico. Soa familiar? Pois é: foram eles.
Recentemente, descobriu-se que os duendes respondem também por mais de 80% dos extravios de guarda-chuva. Conforme já havia adiantado a estudiosa Ananda Müller em algum post perdido para sempre no ciberespaço, esses objetos são substituídos por clipes de papel. Isso explica por que 1) você nunca encontra um guarda-chuva quando precisa e 2) sempre há meia dúzia de clipes na sua mesa, mesmo que você nunca tenha comprado nenhum.
Após a revelação de seu modus operandi, os duendes se viram obrigados a migrar para a prestação de serviços. Em Porto Alegre, por exemplo, eles são responsáveis pela colocação dos anúncios "CONSERTO GAITA", dos cartazes do Art & Bar (aqueles que anunciam um show do Rolling Stones a cada dois meses) e das plaquinhas de lata com os dizeres "JESUS BREVE VOLTARA" [sic]. Nas horas vagas, são eles que picham o nome de Toniolo nas paredes e calçadas da cidade.
Por último, adivinhe quem desliga a luz quando você passa pelo poste.
(Com contribuições de Camilo Arthur e Marcelo Berté.)