Autobiografia
I
Era 1985, Ano Mundial da Juventude. Na TV, surgiam o Rock in Rio e o Gorbatchov. Tancredo também surgia - e morria. O rádio trazia novidades do planalto e da capital gaúcha. Em uma pacata cidade do interior, sem televisão nem FM, meu pai teve uma idéia para comemorar a descoberta do buraco na camada de ozônio: convidou minha mãe para deitar mais cedo. Acomodaram os dois filhos adolescentes e foram, contentes, encomendar mais um. O sétimo.
II
Dizem que cogitaram nomes perigosos, como Márcio, mas preferiram não inventar moda. No fim das contas, o novo irmão da Deloci Rosane e do Marli José (Zé, para evitar ambiguidade) acabou sendo abençoado com um modesto "Luís Fernando". Dizem também que minha mãe quase morreu de infecção alguns dias depois do parto. O que não se sabe, até hoje, é o que esqueceram no útero. Se foram restos de placenta, minha mãe deu à luz uma criança. Meu medo, sinceramente, é o de que tenha sido a criança...
III
Tempos depois, foi a vez do patriarca flertar com a morte, mas sem a minha partipação. Ganhou uma chance, garreado, em troca do último maço de cigarros e do último trago. Também nessa época, meus irmãos que ainda viviam em casa seguiram a antiga tradição familiar de sair no rastro do próprio futuro, calcado invariavelmente na grande Porto Alegre. Sem poder ir tão longe, eu me contentava em completar a tabela de vacinas e criar cáries. Era uma dentição tão bela que, ao invés de posar sorrindo, me mandavam fechar a boca para que as fotos ficassem bonitas.
IV
Foi então que, por algum método xamânico, meu pai me ensinou a ler. Mesmo sem conseguir escrever meu nome, rabisquei pela casa todos os palavrões que conhecia, o que me rendeu o primeiro emprego: escriba não-remunerado. Com o tempo, minha gramática provou que mesmo a pior notícia pode nos fazer rir e, assim, minhas cartas foram substituídas pelo orelhão da esquina. Passados alguns meses, o velho me matriculou na primeira série, noticiando sem que ninguém perguntasse tudo o que eu já sabia. No primeiro dia de aula, de camiseta azul e boné rosa, saquei meus lápis do enorme estojo de madeira e dei a meu auto-retrato o título mais emblemático da história: "O cachorro também é menino".
V
Era mesmo uma época de descobertas. Descobri, por exemplo, que bastava um vírus para antecipar as férias. No afã da novidade, minha escolha recaiu sobre a hepatite A, que por sua vez recaiu sem piedade sobre meus poucos quilos. Descobri também que não guardar certos segredos era garantia infalível da violência educadora da matriarca. Meu voto de silêncio, entretanto, acabou nas primeiras manifestações do meu mal misterioso: vomitava em casa, nos vizinhos, na escola e em tudo que ocupasse lugar no tempo e espaço. Em seguida, descobri que a comida do hospital era tragável e o Zé Carioca não era das melhores companhias. Dois ou três riscos de Bic e ele virou o Batman.
VI
O amor não tardou a aparecer. Tomou forma pelas professoras e se espalhou rapidamente por uma parcela significativa do sexo oposto. Era o amor mosqueteiro: um por todas, todos por uma. Essa uma mudava de nome a cada ano e era basicamente uma versão reduzida de She-Ra e Xuxa, incluindo a violência e o QI. Recebia com indiferença nossas cartas de amor infante e se tornava, em poucos anos, carola ou mãe solteira.
VII
Em uma segunda-feira, a morte pediu revanche e levou meu velho. Aos 13, eu poderia ter feito disso um bom pretexto para ser delinquente, mas optei por seguir sendo o CDF católico que dormia com as orelhas cobertas por medo de perder os tragos. Foi nessa época de hormônios em festa que duas bandas abriram minha cabeça de interiorano. Enquanto a história de João do Santo Cristo me mostrava que DJ Bobo não tinha esse nome por acaso, um canhoto descabelado me apresentava às camisas de flanela e me fazia comprar o primeiro CD. Não precisava fugir de casa: minha pequena revolta estava ali, em acrílico e policarbonato.
VIII
O primeiro beijo veio tão tarde quanto andar de bicicleta, depois de horas dobrado em um ônibus escolar discutindo o cultivo do arroz e a novela das oito. Teria sido um beijo de cinema, não fosse o mocinho beijar com o olho esquerdo aberto, sem saber como mexer a boca nem o que fazer com a língua. Quando os outros passageiros irromperam em comemoração, aos gritos de "Finalmente!" e "Desencalhou!", sorri: era um homem.
IX
O caminho ao primeiro emprego passou por um concurso de monografias do qual eu fui o incrível, imbatível e inegável vencedor, ainda que o número mínimo de candidatos não tenha sido atingido. Em uma cidade em que ganhar a vida como empacotador de supermercado era o sonho de todos, quis uma profissão mais digna da minha compleição muscular: virei repórter. O ponto alto da minha breve carreira jornalística foram as enquetes. Saía às ruas para saber a opinião das pessoas sobre um assunto qualquer e, por questões de pura eficiência, tentava induzí-las fazendo perguntas às quais respondiam "sim, "não" ou expressões equivalentes. Era um ótimo método. Só falhou quando o jornal publicou uma entrevista a uma surdo-muda.
(Continua.)