Meu recém-falecido ex-colega

(Ou Descrição de sonho #1.)

Eu estava caminhando por uma rua próxima a minha antiga casa quando um avião cruzou o céu em direção ao solo. O som da explosão chegou a mim no mesmo instante em que vi um paraquedista se aproximando a uma velocidade que, certamente, não permitiria uma aterrissagem segura. O paraquedista se estatelou em um terreno baldio ao lado da casa de um ex-colega meu e, como em qualquer outro acidente, sua primeira reação foi tentar levantar-se e provar (sobretudo a si mesmo) que tudo estava bem. Como bom estudante de manuais de primeiros socorros, pedi para que não se movesse e fui à casa de meu ex-colega pedir ajuda. Seu pai estava ao telefone e, ao desligar, veio finalmente abrir a porta. Com os olhos vermelhos, disse que meu ex-colega acabara de morrer. De gripe.

Apesar da notícia triste que acabara de receber, o pai de meu recém-falecido ex-colega concordou em ajudar o paraquedista - que era, como você já deve ter imaginado, piloto do avião. Graças a esse gesto estóico de solidariedade, pude correr à rodoviária para comprar uma passagem. No caminho, encontrei um ex-professor da faculdade que, descobri, era tio de meu recém-falecido ex-colega. Revoltou-se quando lhe contei que o pai de meu recém-falecido ex-colega estava com os olhos vermelhos, pois, segundo ele, o velho não perdia nenhuma oportunidade de chamá-lo de indie. Perguntei se a rodoviária possuía caixa eletrônico do banco do estado, pois eu não tinha dinheiro. O professor não sabia, mas uma propaganda do banco na próxima curva tirou minha dúvida. Chegamos à rodoviária às 17h, mas o ônibus só sairia às 18h18*.

* Coincidentemente, na vida real, esse é meu horário de saída do trabalho.

Os duendes e a sociedade moderna

Nossa primeira reação a acontecimentos estranhos é ligá-los a Deus ou ao Diabo, dependendo da situação. A causa de boa parte dessas ocasiões, no entanto, é bem menos fantástica e incrivelmente óbvia: duendes.

Duende_matinal

Até a grande crise financeira, esses pequenos seres desprovidos de beleza viviam tranquilamente guardando potes de ouro no final do arco-íris. Um dia, porém, ficou ruim para todo mundo e, além do ouro, os duendes passaram a guardar também uma infinidade de pertences humanos. Afinal de contas, sobreviver é preciso.

O item preferido dos duendes é, sem sombra de dúvida, a palheta. Você chama os amigos do grupo de jovens para um churrasco fraternal, limpa a garganta e se prepara para puxar aquela música da Legião Urbana. Apalpa os bolsos da calça cargo e não encontra nem sinal do maldito pedaço de plástico. Soa familiar? Pois é: foram eles.

Recentemente, descobriu-se que os duendes respondem também por mais de 80% dos extravios de guarda-chuva. Conforme já havia adiantado a estudiosa Ananda Müller em algum post perdido para sempre no ciberespaço, esses objetos são substituídos por clipes de papel. Isso explica por que 1) você nunca encontra um guarda-chuva quando precisa e 2) sempre há meia dúzia de clipes na sua mesa, mesmo que você nunca tenha comprado nenhum.

Após a revelação de seu modus operandi, os duendes se viram obrigados a migrar para a prestação de serviços. Em Porto Alegre, por exemplo, eles são responsáveis pela colocação dos anúncios "CONSERTO GAITA", dos cartazes do Art & Bar (aqueles que anunciam um show do Rolling Stones a cada dois meses) e das plaquinhas de lata com os dizeres "JESUS BREVE VOLTARA" [sic]. Nas horas vagas, são eles que picham o nome de Toniolo nas paredes e calçadas da cidade.

Por último, adivinhe quem desliga a luz quando você passa pelo poste.

 

(Com contribuições de Camilo Arthur e Marcelo Berté.)