Balu

Se aproximou com curiosidade, enquanto o forasteiro olhava a calçada com uma caneca de café quente entre as mãos. Não perguntou seu nome, de onde vinha ou por que não tinha uma sacola de viagem. O homem sentado no segundo degrau da escada virou em sua direção e essa foi a deixa para que puxasse conversa. O senhor é estranho, né? Tu acha? Por quê? Passa os dias aí sem falar nada, olhando pra lugar nenhum! Vou te contar um segredo, então: eu tenho um problema. Que problema? Nasci com o coração maior do que a cabeça. Verdade? Verdade.

Ficaram um tempo em silêncio, o menor tentando descobrir o que o maior via de tão interessante nas lajes de pedra grês. Mas a tua cabeça não é pequena... Achou graça. Não, não é - assentiu. Meu coração é que é grande. Isso dói? Às vezes. Então não quero ter um coração gordo! Tu nasce assim, não tem escolha. Sério? Sério. E como a gente faz pra descobrir se tem o coração maior do que a cabeça? Tu tem gato, cachorro, algum bicho de estimação? A gente tem um cachorro, o Balu. E tu gosta do Balu? Gosto. Bastante? Bastante. E se um dia o Balu ficasse doente e tu tivesse que mandar ele embora, pra não ficar doente também, o que tu faria? Ficava com ele, né!

Não disse nada. Soprou o vapor e tomou um gole de café.

― Manzana! Onde é que tu te meteu?

― Tô no alto de uma antena de celular, mãe.

― Que antena, Manzana?

― Em Três Vendas...

― Mas que é que tu tá fazendo em Três Vendas, trepado numa antena, Manzana?

― Tô comendo um xis, mãe.

― Comendo xis!?

― É, mãe. Comprei um xis e trouxe para comer aqui.

― Manzana, não mente pra mim: tu usou alguma coisa?

― Não, mãe! Tu sabe que eu tô limpo!

― Tu tá dizendo que está fora da cidade, a essa hora da noite, trepado numa antena, comendo um xis... Tu tá é drogado, Manzana, de novo!

― Não tô drogado, mãe! Não posso nem comer um xis em paz, caramba?