Como descobrir se você está viciado no Last.fm

Se você esteve em coma nos últimos oito anos e não sabe o que é o Last.fm, podemos resumí-lo como um serviço de recomendação de música baseado no que o usuário ouve. O maior do mundo, diga-se de passagem. Através de um sistema chamado Audioscrobbler, cada usuário constrói um perfil detalhado de seu próprio gosto musical, registrando as músicas ouvidas de seu próprio computador, rádio online ou dispositivos portáteis.

Por outro lado, se você não habitou nenhum plano paralelo, aqui vão alguns sintomas-chave para diagnosticar se sua relação com o Last.fm já evoluiu para a dependência psíquica, também conhecida como Síndrome de Scrobbling Obsessivo. Por ordem crescente de gravidade:

  1. Ao ouvir a clássica pergunta "O que você gosta de ouvir?", sua primeira reação é abrir seu perfil, copiar a URL e enviá-la ao interlocutor. Se o Ctrl + C, Ctrl + V não for possível, você responde com enfado: "Vê no meu Last";
  2. Se a reação do interlocutor for esboçar a mais bela cara de paisagem, você leva as mãos à cintura e exclama "Não me diga que você não tem um Last.fm!". Em seguida, explica tudo sobre o serviço e convence o atrasadinho a criar um perfil;
  3. Você abandona rádio, toca-discos, CD player e MP12 Foston. Afinal de contas, eles não fazem scrobbling;
  4. Você desliga o plugin para ouvir Fernando e Sorocaba;
  5. Você acompanha suas estatísticas e sabe responder de bate-pronto qual foi a terceira música mais ouvida nos últimos seis meses. Depois de um tempo, passa a torcer por determinados artistas, ouvindo-os tantas vezes quantas sejam necessárias para manipular os números;
  6. Você fuxica a biblioteca alheia com a mesma avidez com que fuxica(va) scraps no orkut;
  7. Antes de ver as fotos do seu novo pretendente, você dá aquela conferida básica na compatibilidade musical (e não aceita nada menor que High);
  8. E, por fim, o sintoma inegável: você descobre se alguém está online se ele aparece fazendo scrobbling.

Agora... Não me diga que você não tem um Last.fm!

E o anúncio super transado do Santander...

Deu pau :-)

A tela de erro do Torrentz

Um belo dia, ao fazer uma busca...

Para ver outras página de erro criativas, visite 404 Error Pages: Reloaded404 Error Pages, One More Time, ambos do Smashing Magazine.

Enquanto isso, no Last.fm...

Pura alegria no canto inferior direito.

Três músicas... proparoxitonais

Se você não tem mais nada a fazer na vida, mas nada mesmo, reserve uma fatia do seu ócio para ler o trabalho É o Amor - Lugares-Comuns da Música Popular Brasileira por Suas Rimas, escrito pelo guitarrista e vocalista da banda Ecos Falsos, Gustavo Martins. Uma das conclusões do amigo, por exemplo, é a de que "as proparoxítonas, como era de se esperar, constituem raras exceções". Dando sequência a quase famosa série de trincas musicais, publico hoje três dessas raridades.

Chico Buarque – Construção

Clássico. Presença obrigatória em apostilas de cursinho e livros de Língua Portuguesa.

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Alvarenga e Ranchinho - Drama de Angélica

Não se prenda à primeira impressão, pois Alvarenga e Ranchinho formaram uma dupla sertaneja com quase meio século de carreira. Composta por Alvarenga e M. G. Barreto, essa música é tocada até hoje no espetáculo Tangos e Tragédias.

Ouve meu cântico
Quase sem ritmo
Que a voz de um tísico
Magro esquelético

Poesia épica,
Em forma esdrúxula
Feita sem métrica,
Com rima rápida

Amei Angélica,
Mulher anêmica
De cores pálidas
E gestos tímidos

Era maligna
E tinha ímpetos
De fazer cócegas
No meu esôfago

Em noite frígida,
Fomos ao Lírico
Ouvir o músico
Pianista célebre

Soprava o zéfiro,
Ventinho úmido
Então Angélica
Ficou asmática

Fomos ao médico
De muita clínica
Com muita prática
E preço módico

Depois do inquérito,
Descobre o clínico
O mal atávico,
Mal sifilítico

Mandou-me o célere,
Comprar noz vômica
E ácido cítrico
Para o seu fígado

O farmacêutico,
Mocinho estúpido,
Errou na fórmula,
Fez despropósito

Não tendo escrúpulo,
Deu-me sem rótulo
Ácido fênico
E ácido prússico

Corri mui lépido,
Mais de um quilômetro
Num bonde elétrico
De força múltipla

O dia cálido
Deixou-me tépido
Achei Angélica
Já toda trêmula

A terapêutica
Dose alopática,
Lhe dei uma xícara
De ferro ágate

Tomou no fôlego,
Triste e bucólica,
Esta estrambólica
Droga fatídica

Caiu no esôfago
Deixou-a lívida,
Dando-lhe cólica
E morte trágica

O pai de Angélica
Chefe do tráfego,
Homem carnívoro,
Ficou perplexo

Por ser estrábico
Usava óculos:
Um vidro côncavo,
Outro convexo

Morreu Angélica
De um modo lúgubre
Moléstia crônica
Levou-a ao túmulo

Foi feita a autópsia
Todos os médicos
Foram unânimes
No diagnóstico

Fiz-lhe um sarcófago,
Assaz artístico
Todo de mármore,
Da cor do ébano

E sobre o túmulo
Uma estatística,
Coisa metódica
Como Os Lusíadas

E numa lápide,
Paralelepípedo,
Pus esse dístico
Terno e simbólico:

"Cá jaz Angélica,
moça hiperbólica
beleza helênica,
morreu de cólica!"

Skank - Formato Mínimo

Por último - e sim, menos importante - uma menção honrosa. Menção honrosa porque Samuel Rosa e Rodrigo F. Leão forjam uma proparoxítona em rubrica e, coincidência ou não, repetem rimas de Construção e palavras de - surpresa! - Drama de Angélica.

Começou de súbito
A festa estava mesmo ótima
Ela procurava um príncipe
Ele procurava a próxima

Ele reparou nos óculos
Ela reparou nas vírgulas
Ele ofereceu-lhe um ácido
E ela achou aquilo o máximo

Os lábios se tocaram ásperos
Em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos
E ávidos, gozaram rápido

Ele procurava álibis
Ela flutuava lépida
Ele sucumbia ao pânico
E ela descansava lívida

O medo redigiu-se ínfimo
E ele percebeu a dádiva
Declarou-se dela, o súdito
Desenhou-se a história trágica

Ele, enfim, dormiu apático
Na noite segredosa e cálida
Ela despertou-se tímida
Feita do desejo, a vítima

Fugiu dali tão rápido
Caminhando passos tétricos
Amor em sua mente épico
Transformado em jogo cínico

Para ele, uma transa típica
O amor em seu formato mínimo
O corpo se expressando clínico
Da triste solidão, a rúbrica

Eu avisei: não se prenda à primeira impressão. Hasta!