Se você esteve em coma nos últimos oito anos e não sabe o que é o Last.fm, podemos resumí-lo como um serviço de recomendação de música baseado no que o usuário ouve. O maior do mundo, diga-se de passagem. Através de um sistema chamado Audioscrobbler, cada usuário constrói um perfil detalhado de seu próprio gosto musical, registrando as músicas ouvidas de seu próprio computador, rádio online ou dispositivos portáteis.
Por outro lado, se você não habitou nenhum plano paralelo, aqui vão alguns sintomas-chave para diagnosticar se sua relação com o Last.fm já evoluiu para a dependência psíquica, também conhecida como Síndrome de Scrobbling Obsessivo. Por ordem crescente de gravidade:
Ao ouvir a clássica pergunta "O que você gosta de ouvir?", sua primeira reação é abrir seu perfil, copiar a URL e enviá-la ao interlocutor. Se o Ctrl + C, Ctrl + V não for possível, você responde com enfado: "Vê no meu Last";
Se a reação do interlocutor for esboçar a mais bela cara de paisagem, você leva as mãos à cintura e exclama "Não me diga que você não temum Last.fm!". Em seguida, explica tudo sobre o serviço e convence o atrasadinho a criar um perfil;
Você abandona rádio, toca-discos, CD player e MP12 Foston. Afinal de contas, eles não fazem scrobbling;
Você desliga o plugin para ouvir Fernando e Sorocaba;
Você acompanha suas estatísticas e sabe responder de bate-pronto qual foi a terceira música mais ouvida nos últimos seis meses. Depois de um tempo, passa a torcer por determinados artistas, ouvindo-os tantas vezes quantas sejam necessárias para manipular os números;
Você fuxica a biblioteca alheia com a mesma avidez com que fuxica(va) scraps no orkut;
Antes de ver as fotos do seu novo pretendente, você dá aquela conferida básica na compatibilidade musical (e não aceita nada menor que High);
E, por fim, o sintoma inegável: você descobre se alguém está online se ele aparece fazendo scrobbling.
Se você não tem mais nada a fazer na vida, mas nada mesmo, reserve uma fatia do seu ócio para ler o trabalho É o Amor - Lugares-Comuns da Música Popular Brasileira por Suas Rimas, escrito pelo guitarrista e vocalista da banda Ecos Falsos, Gustavo Martins. Uma das conclusões do amigo, por exemplo, é a de que "as proparoxítonas, como era de se esperar, constituem raras exceções". Dando sequência a quase famosa série de trincas musicais, publico hoje três dessas raridades.
Chico Buarque – Construção
Clássico. Presença obrigatória em apostilas de cursinho e livros de Língua Portuguesa.
Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego Amou daquela vez como se fosse o último Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho seu como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Subiu a construção como se fosse sólido Ergueu no patamar quatro paredes mágicas Tijolo com tijolo num desenho lógico Seus olhos embotados de cimento e tráfego Sentou pra descansar como se fosse um príncipe Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo Bebeu e soluçou como se fosse máquina Dançou e gargalhou como se fosse o próximo E tropeçou no céu como se ouvisse música E flutuou no ar como se fosse sábado E se acabou no chão feito um pacote tímido Agonizou no meio do passeio náufrago Morreu na contramão atrapalhando o público Amou daquela vez como se fosse máquina Beijou sua mulher como se fosse lógico Ergueu no patamar quatro paredes flácidas Sentou pra descansar como se fosse um pássaro E flutuou no ar como se fosse um príncipe E se acabou no chão feito um pacote bêbado Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Alvarenga e Ranchinho - Drama de Angélica
Não se prenda à primeira impressão, pois Alvarenga e Ranchinho formaram uma dupla sertaneja com quase meio século de carreira. Composta por Alvarenga e M. G. Barreto, essa música é tocada até hoje no espetáculo Tangos e Tragédias.
Ouve meu cântico Quase sem ritmo Que a voz de um tísico Magro esquelético Poesia épica, Em forma esdrúxula Feita sem métrica, Com rima rápida Amei Angélica, Mulher anêmica De cores pálidas E gestos tímidos Era maligna E tinha ímpetos De fazer cócegas No meu esôfago Em noite frígida, Fomos ao Lírico Ouvir o músico Pianista célebre Soprava o zéfiro, Ventinho úmido Então Angélica Ficou asmática Fomos ao médico De muita clínica Com muita prática E preço módico Depois do inquérito, Descobre o clínico O mal atávico, Mal sifilítico Mandou-me o célere, Comprar noz vômica E ácido cítrico Para o seu fígado O farmacêutico, Mocinho estúpido, Errou na fórmula, Fez despropósito Não tendo escrúpulo, Deu-me sem rótulo Ácido fênico E ácido prússico Corri mui lépido, Mais de um quilômetro Num bonde elétrico De força múltipla O dia cálido Deixou-me tépido Achei Angélica Já toda trêmula A terapêutica Dose alopática, Lhe dei uma xícara De ferro ágate Tomou no fôlego, Triste e bucólica, Esta estrambólica Droga fatídica Caiu no esôfago Deixou-a lívida, Dando-lhe cólica E morte trágica O pai de Angélica Chefe do tráfego, Homem carnívoro, Ficou perplexo Por ser estrábico Usava óculos: Um vidro côncavo, Outro convexo Morreu Angélica De um modo lúgubre Moléstia crônica Levou-a ao túmulo Foi feita a autópsia Todos os médicos Foram unânimes No diagnóstico Fiz-lhe um sarcófago, Assaz artístico Todo de mármore, Da cor do ébano E sobre o túmulo Uma estatística, Coisa metódica Como Os Lusíadas E numa lápide, Paralelepípedo, Pus esse dístico Terno e simbólico: "Cá jaz Angélica, moça hiperbólica beleza helênica, morreu de cólica!"
Skank - Formato Mínimo
Por último - e sim, menos importante - uma menção honrosa. Menção honrosa porque Samuel Rosa e Rodrigo F. Leão forjam uma proparoxítona em rubrica e, coincidência ou não, repetem rimas de Construção e palavras de - surpresa! - Drama de Angélica.
Começou de súbito A festa estava mesmo ótima Ela procurava um príncipe Ele procurava a próxima Ele reparou nos óculos Ela reparou nas vírgulas Ele ofereceu-lhe um ácido E ela achou aquilo o máximo Os lábios se tocaram ásperos Em beijos de tirar o fôlego Tímidos, transaram trôpegos E ávidos, gozaram rápido Ele procurava álibis Ela flutuava lépida Ele sucumbia ao pânico E ela descansava lívida O medo redigiu-se ínfimo E ele percebeu a dádiva Declarou-se dela, o súdito Desenhou-se a história trágica Ele, enfim, dormiu apático Na noite segredosa e cálida Ela despertou-se tímida Feita do desejo, a vítima Fugiu dali tão rápido Caminhando passos tétricos Amor em sua mente épico Transformado em jogo cínico Para ele, uma transa típica O amor em seu formato mínimo O corpo se expressando clínico Da triste solidão, a rúbrica
Eu avisei: não se prenda à primeira impressão. Hasta!